Favelas × cidade inteira
Em São Paulo, o voto das favelas se afasta claramente do restante da cidade. No restante da cidade (os demais locais de votação), Lula teve 46,1%, 10,4 pontos a menos que nos locais de favela. Haddad, que perdeu na cidade, vence nos locais de favela, enquanto no restante da cidade Tarcísio leva 53,3%.
Comparecimento
Depende de onde fica a favela
Lula vence nos locais de favela da Zona Sul, da Zona Norte e da Zona Leste; na Zona Norte, Flávio Bolsonaro ganha no restante da região. Para governador, Haddad vence nas favelas da Zona Sul, da Zona Norte e da Zona Leste, enquanto Tarcísio vence no restante dessas regiões. O Centro tem poucas favelas (cerca de 1.700 eleitores de favela estimados) e nenhum local com maioria de eleitores de favela, por isso fica sem comparação. Na Zona Oeste, só um local entra no recorte principal, pouco para dizer quem vence. Em cada região, a barra "Restante" reúne os demais locais da região.
Quem vota nos locais de favela
Perfil do eleitorado
Cadastro de eleitores do TSE (perfil por seção eleitoral): dados de quem está inscrito em cada urna, sem estimativa geográfica. *Renda e evangélicos: Censo 2022, nas áreas de onde vêm os eleitores de cada local; a renda é o rendimento médio dos responsáveis pelos domicílios de cada setor, e a religião é a das pessoas de 10 anos ou mais da área de ponderação (cerca de 30 mil moradores). Essas linhas são estimativas geográficas.
O voto da favela é só escolaridade, renda ou religião?
Mapa
Favela por favela
Estimativa para cada favela: os moradores são distribuídos entre os locais de votação próximos que têm vaga, e o resultado da favela é a média desses locais, ponderada pelo número de moradores que cada um recebe. Como esses locais também recebem eleitores de fora da favela, o resultado tende a se aproximar do voto do entorno; a confiança indica o quanto os moradores votam em locais onde a maioria dos eleitores mora em favela, e é baixa quando menos da metade deles tem local com vaga a até 2 km (veja como calculamos). Por padrão, aparecem só as favelas de confiança média ou alta; a busca por nome encontra todas. Toque numa linha para ver os locais usados e localizar a favela no mapa. A linha abaixo do nome mostra o distrito.
| Favela ou comunidade | Pres. | Gov. |
|---|
O resultado muda com o critério?
Votos válidos nos locais selecionados por cada critério. Escolha o cargo e a cidade inteira ou uma região.
Os critérios "Locais ≥ X% favela" usam só os locais em que a parcela estimada de eleitores de favela atinge X% e o perfil do eleitorado no TSE é compatível com isso (veja como calculamos); "Locais" é quantos locais de votação entram em cada critério (um local é o prédio onde se vota, geralmente uma escola, com várias seções eleitorais, cada uma com sua urna); "Votantes" é quantas pessoas votaram nesses locais. Os critérios por distância contam o local inteiro se ele estiver a até X metros do limite de uma favela. "≥ 90%" é o recorte quase sem mistura com eleitores de fora de favela. O mais votado de cada cargo aparece em negrito.
Como calculamos
O TSE divulga quantos votos cada candidato teve em cada seção eleitoral e onde fica cada local de votação, mas não diz onde o eleitor mora. A análise, portanto, estima de onde vêm os eleitores de cada local e, a partir disso, em quais locais a maioria dos eleitores mora em favela.
1. Dados
Votos e comparecimento: votação e detalhe da votação por seção eleitoral do 1º turno de 2026, do Portal de Dados Abertos do TSE (arquivo nacional para presidente e arquivo de SP para governador, gerados em 05 e 06/10/2026). Locais: eleitorado por local de votação 2026, também do TSE, com as coordenadas de cada local e o eleitorado de cada seção. Um local de votação é o prédio onde se vota, geralmente uma escola; cada local tem várias seções, cada uma com sua urna. Na cidade de São Paulo são 2.057 locais e 26.696 seções. Como as coordenadas são do prédio, a análise soma as seções de cada local.
Favelas: as Favelas e Comunidades Urbanas delimitadas pelo IBGE no Censo 2022; com a população de cada uma somada a partir dos setores censitários que a compõem, no total 1.359 favelas e 1.728.235 moradores. A Prefeitura mantém um cadastro próprio de favelas, mas sem a população de cada uma; por isso a análise usa a base do IBGE, que traz a população do Censo 2022. População fora das favelas: setores censitários do IBGE (Censo 2022), com a população de cada setor por faixa etária e a renda dos responsáveis pelos domicílios; fora das favelas, são 8.061.496 moradores com 16 anos ou mais.
2. De onde vêm os eleitores de cada local
- Moradores de favela. Cada favela é preenchida com pontos a cada 20 m, e a população da favela com 16 anos ou mais é dividida igualmente entre esses pontos. A proporção de moradores com 16 anos ou mais de cada favela vem dos setores censitários que ficam dentro dela.
- Moradores de fora de favela. Cada setor censitário vira um ponto com a sua população de 16 anos ou mais; setores grandes (mais de 0,25 km²) viram uma grade de pontos a cada 250 m. Os setores que pertencem a uma favela ficam de fora desta etapa, porque seus moradores já estão nos pontos de favela.
- Só quem pode votar. As favelas têm mais crianças que o resto da população: 74,9% dos moradores de favela têm 16 anos ou mais, contra 81,7% na cidade como um todo. Por isso a análise usa só a população de 16 anos ou mais (a faixa de 15 a 19 anos do Censo entra com quatro quintos; quando o IBGE oculta faixas de um setor pequeno por sigilo, a proporção é calculada com as faixas disponíveis). Essa população é convertida em eleitores pela razão entre o eleitorado e a população de 16 anos ou mais da cidade (0,98), de modo que, somada, essa população equivale ao eleitorado real.
- Distribuição com capacidade. Cada local de votação comporta o seu eleitorado registrado no TSE. Cada morador vai para o local mais próximo que ainda tem vaga. Quando vários moradores disputam o mesmo local, ganha quem mora mais perto, e os que sobram passam para o próximo local com vaga. A distribuição é feita em até doze rodadas. Ninguém vai para um local a mais de 2 km: quem não encontra vaga até essa distância fica sem local na estimativa. Isso acontece onde há mais moradores do que eleitores inscritos por perto, como em bairros que cresceram e em favelas onde muitos moradores votam na cidade de origem. Nessa situação ficam 12% dos eleitores de favela, que não entram nas estimativas. A fração varia entre as regiões: vai de 9% na Zona Leste a 26% na Zona Oeste. Quando uma seção sai do seu local original (uma escola em obra, por exemplo) para um substituto sem coordenada, usamos a coordenada do original. Presídios e unidades socioeducativas não têm eleitorado próprio no cadastro e não recebem moradores na distribuição; seus votos, assim como os de qualquer local sem coordenada, entram no restante da cidade.
- Parcela de favela. Para cada local, a parcela de favela é o número de eleitores de favela que ele recebeu dividido pelo seu eleitorado.
3. Os números principais
O recorte principal reúne os 106 locais em que a parcela de favela é de pelo menos 50% e o perfil do cadastro do TSE é compatível com isso (442.817 eleitores). Ficam de fora os locais em que os dois indicadores de escolaridade do cadastro contradizem a estimativa: mais de 15% dos eleitores com ensino superior completo e menos de 20% sem fundamental completo. Nesses locais, a parcela estimada é provavelmente erro da distribuição geográfica, que às vezes enche de moradores de favela uma escola de bairro de classe média; por esse motivo, 5 locais saíram do recorte, e o mesmo filtro vale para os recortes de 75% e 90%. Para comparação, nos locais com 90% ou mais de eleitores de favela as medianas são de 3,6% com superior completo e 26% sem fundamental completo. Nos locais do recorte principal, cerca de 68% dos eleitores moram em favela, e esses locais recebem 24% de todos os eleitores de favela da cidade. Os demais se dividem assim: 63% do total votam em locais onde não são maioria, 12% ficam sem local a até 2 km e 1% vota nos locais excluídos pelo filtro de perfil. A cidade inteira é o resultado oficial. O restante da cidade ou da região são os demais locais de votação, fora do recorte principal. Ele não é a cidade sem as favelas: nele estão também os eleitores de favela que votam em locais onde não são maioria. Os percentuais são de votos válidos; "votantes" soma válidos, brancos e nulos.
Na tabela de critérios, o mesmo cálculo é refeito com recortes mais estritos (locais com pelo menos 75% e 90% de eleitores de favela) e com um critério puramente geográfico: o local inteiro conta se estiver a até 50, 100 ou 200 metros do limite de uma favela. Quanto mais estrito o recorte por parcela, menor a mistura com eleitores de fora de favela, mas também menos locais na amostra. Os critérios por distância medem outra coisa: escolas na borda de uma favela muitas vezes atendem sobretudo o bairro vizinho, e por isso esses critérios misturam bem mais eleitores de fora de favela do que os recortes por parcela.
4. Regiões
As regiões (Centro, Zona Norte, Zona Sul, Zona Leste e Zona Oeste) agrupam os 96 distritos administrativos da cidade, os mesmos do site Eleições 2026 em SP por distrito. Cada local é classificado pelo distrito em que está. Em cada região, a barra "Favelas" usa os locais do recorte principal e a barra "Restante", os demais locais da região. Regiões com menos de 10 locais no recorte principal são marcadas como amostra pequena.
5. Comparecimento
Abstenção, brancos e nulos vêm do detalhe da votação por seção do TSE, para presidente. A abstenção é a fração dos eleitores aptos que não votaram; brancos e nulos são frações de quem votou. Nos locais do recorte principal, a abstenção foi de 24,0%, contra 23,4% na cidade inteira. Como o cadastro eleitoral inclui pessoas que se mudaram ou morreram e ainda não foram retiradas, a abstenção medida é um pouco maior que a real em toda a cidade.
6. Resultado por favela e mapa
O resultado de cada favela é a média dos resultados dos locais que receberam seus moradores, ponderada pelo número de moradores que cada local recebeu. A base do IBGE não agrupa favelas em complexos; cada favela ou comunidade urbana aparece separadamente. Como esses locais também recebem eleitores de fora da favela, o resultado de uma favela vizinha de bairros de outro perfil tende a se aproximar do voto desses vizinhos. Por isso cada favela traz uma confiança: a parcela média de eleitores de favela nos locais onde seus moradores votam. Ela é alta (60% ou mais) quando os moradores votam em locais onde a maioria dos eleitores mora em favela, média (40% a 60%) ou baixa (menos de 40%) quando votam em locais mistos. A confiança também é baixa quando menos da metade dos moradores tem local com vaga a até 2 km: nesse caso, o resultado vale só para os que têm. Por padrão, a tabela mostra só as favelas de confiança média ou alta, e no mapa as de confiança baixa ficam em cinza. São a maioria: 1.054 das 1.359 favelas com moradores, com 61% dos moradores de favela. A busca por nome encontra todas, e o resultado de qualquer favela aparece ao tocá-la no mapa; uma opção mostra as de confiança baixa na tabela e no mapa, com cor mais clara e borda tracejada. O resultado por favela serve para localizar e comparar favelas, não como medida exata do voto dos seus moradores.
7. Perfil do eleitorado, renda, religião e validação
O TSE publica o perfil de quem está inscrito em cada seção eleitoral: escolaridade, faixa etária e sexo, entre outros. Esses dados vêm do cadastro de eleitores e não dependem de nenhuma estimativa geográfica. Cor/raça e identidade de gênero ainda vêm sem informação para mais de 80% dos eleitores e não foram usadas. A renda do entorno de cada local é a renda média dos responsáveis pelos domicílios (Censo 2022) nos setores de onde vêm seus eleitores, conforme a distribuição acima; ela é, portanto, uma estimativa geográfica. Nos locais do recorte principal, essa renda é de R$ 1.951, contra R$ 4.792 na cidade inteira. A religião do entorno segue o mesmo caminho: cada morador recebe a fração de evangélicos da sua área de ponderação do Censo 2022 (regiões de cerca de 30 mil moradores, para as quais o IBGE publica os resultados da amostra, que inclui a pergunta sobre religião), e cada local fica com a média de quem vota nele. No entorno dos locais do recorte principal, 29% das pessoas de 10 anos ou mais são evangélicas, contra 23% na cidade inteira. Como a área de ponderação é grande, uma favela pequena fica com a religião do bairro em volta.
Esses dados servem para três coisas: descrever quem vota nos locais de favela; validar a estimativa, já que, se ela estiver certa, os locais com mais eleitores de favela devem ter eleitorado de escolaridade mais baixa (a correlação entre a parcela de favela e a fração de eleitores sem ensino fundamental completo é de 0,47, em todos os locais da cidade); e comparar locais de favela e do restante da cidade com escolaridade, renda ou religião parecida, para ver se o voto da favela é só um reflexo delas. Essa comparação usa faixas da fração de eleitores sem fundamental completo, da renda do entorno ou da fração de evangélicos do entorno; faixas com menos de 5 locais de favela ficam sem comparação. Dos dois lados, só entram locais que passam pelo filtro de perfil do recorte principal.
8. Conferência
A soma de todas as seções da cidade foi comparada, candidato a candidato, com o total oficial do município divulgado pelo TSE: bate voto a voto (6.552.820 votos nominais para presidente e 6.129.176 para governador).
9. Limitações
É uma inferência ecológica: o voto é secreto, e o resultado de um local mistura moradores de favela e vizinhos. A distribuição supõe que cada eleitor vota perto de casa, mas muita gente vota longe, porque o título continua no endereço de quando se registrou. A estrutura etária, a renda e a religião são as do Censo de 2022, e a razão entre eleitores e população de 16 anos ou mais é a mesma em toda a cidade, embora a inscrição varie entre bairros: bairros mais velhos e ricos têm mais eleitores inscritos por adulto, e favelas têm menos, porque muitos moradores votam na cidade de origem. Por isso ninguém é levado a mais de 2 km, e o filtro de perfil tira do recorte as escolas de classe média que ainda assim recebem muitos moradores de favela. Todos com 16 anos ou mais contam igualmente, embora só cerca de 15% dos jovens de 16 e 17 anos estejam inscritos; como as favelas têm mais jovens, isso superestima um pouco os eleitores de favela. As coordenadas do TSE têm imprecisões pontuais. Os limites são os do IBGE e podem não coincidir com o cadastro de favelas da Prefeitura.